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segunda-feira, 22 de julho de 2013

O NASCIMENTO DO MONSTRO


 
O psiquiatra e psicoterapeuta Eduardo Ferreira Santos, em seu livro 'Ciúme: o medo da perda', que já se tornou referência na abordagem do assunto, observa que o ciúme é um sentimento de apreensão relacionado à possibilidade de uma pessoa ser abandonada, rejeitada, menosprezada, ou ainda de haver uma infidelidade a caminho. É o receio de não ser mais amado, de não possuir ou ser dono de alguém. A sensação de 'pertencimento' fica comprometida e ameaçada.

O ciúme funciona como um dispositivo de alerta. Quando o sinal laranja acende na cabeça do ciumento, ele sente como se não estivesse mais conectado com o parceiro como gostaria. E por que, na maioria das vezes, homens e mulheres reagem a essa gama de sentimentos e sensações de formas diferentes? Quem explica é o psicólogo Thiago de Almeida, professor na Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do artigo 'O ciúme romântico e os relacionamentos amorosos heterossexuais contemporâneos'.

"Há 10 mil anos, o homem das cavernas tinha expectativa de apenas 23 anos de vida e precisava procriar o máximo possível nesse pouco tempo. Era uma questão de sobrevivência da espécie. O homem não permitia que a mulher tivesse outros parceiros sexuais porque, se ela engravidasse de outro, era menos um ano na vida dele para pôr seus descendentes no mundo. E criar filhos alheios significava gastar recursos evolutivos (água, frutas, caça) para preservar a prole de outro, em detrimento da sua própria prole", analisa o psicólogo.

Já a mulher via o homem como o seu provedor e protetor. "O temor de o macho se interessar por outra fêmea se prendia à ameaça de ser abandonada. Ela não queria perder o protetor e o mantenedor, dela e dos seus filhos, e de ver rompida a sua ligação emocional. Portanto, os ciúmes de homens e mulheres tinham foco distinto", afirma Almeida.

Segundo o psicólogo, nos tempos atuais, a cultura é outra e até relativiza essas questões, mas o cérebro continua o mesmo, principalmente em casos de suspeita de traição. Na mente de quem foi atacado pelo "monstro de olhos verdes", como William Shakespeare definiu o ciúme na obra 'Otello', um suposto rival passa a ser visto como potencialmente mais atraente e gratificante do que ele, gerando sentimentos como desconfiança, medo, angústia, constrangimento, raiva e rejeição, entre outros.

"O homem continua não admitindo a mera possibilidade do 'lavou tá limpo'. Quando conquista uma mulher, ele a conquista sexual e emocionalmente. Se ele acha que a mulher está interessada em outro, se sente duplamente traído. Na sociedade patriarcal que ainda vivemos, existem dois pesos e várias medidas para tratar de ciúme e infidelidade. De cada dez mulheres traídas, sete perdoam seus parceiros. O homem não. Ele quer exterminar o objeto do ciúme", avalia Almeida.

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